Stand Origem Bahia, durante o III SIIG (2014) em Ilhéus.
CACAU: história e
tradição da região nas escolas do Sul da Bahia.
Luciane Aparecida Goulart.
Dentre as muitas críticas feitas ao Sistema de Educação e,
particularmente, às escolas, está aquela de que o espaço escolar não está sintonizado
com o que ocorre na sociedade, e isso levaria ao desinteresse, evasão escolar, violência,
entre muitos outros problemas.
Na perspectiva de trabalhar os conhecimentos e saberes
locais, as Indicações Geográficas, mais conhecidas pela sigla IG’s podem ser
instrumento de valorização de tradições e da cultura local.
As Indicações Geográficas (IG) “são ferramentas coletivas de proteção e
promoção comercial de produtos tradicionais vinculados a determinados
territórios. [...] além de proteger, deve promover os produtos e sua herança
histórico-cultural, que é intransferível” (BRASIL, 2010, p.9).
As Indicações Geográficas, por valorizarem pela diferenciação (o que é
uma estratégica antiglobalizante) a produção tradicional e atribuir valor
histórico-cultural, também permitem trabalhar com a autoestima de uma região, promovendo
sua história e costumes, sem impedir o progresso técnico e a diversificação.
Para que uma IG seja estabelecida, é necessário o apoio o e
reconhecimento do Estado, mas trata-se de um ativo de Propriedade Intelectual (PI)
pertencente às organizações de produtores, o que envolve intenso trabalho de
conscientização, convencimento e organização de uma complexa rede de relações
sociais.
Nos últimos anos, instituições de ensino, apoio empresarial
e pesquisa (CEPLAC, IFBaiano, UESC, FIEB) e produtores de cacau têm se
mobilizado para buscar políticas públicas que revalorizem e tragam
sustentabilidade econômica, social, ambiental para o mais tradicional cultivo
da região: o cacau.
O Brasil é o quinto produtor
mundial de cacau, já tendo sido, por muitos anos, o primeiro. É também, o único
país que possui toda a cadeia produtiva do cacau (HOLANDA, 2012), tendo o cultivo
sido permitido já em 1679, através de Carta Régia (CEPLAC, 2013).
De acordo com alguns historiadores e
pesquisadores (RIBEIRO, 2001; MENDES COSTA, 2012, BAIARDI; TEIXEIRA, 2010), o
cacau foi introduzido no sul da Bahia em meados do século XVIII. Sementes do cacau já haviam sido distribuídas
pela região a partir de plantações em Camamu, no ano de 1802 e formaram a base
de territorialização da lavoura. No entanto, o plantio comercial do cacau teve
início na década de 1830, quando efetivamente a região começou a ser desbravada
(RIBEIRO, 2001; MENDES COSTA, 2012; CEPLAC, 2013). A adaptação do cultivo ao
clima, solo e à paisagem do sul da Bahia levaram esta região a ser a maior
produtora do país, gerando riquezas, criando cidades e uma cultura própria.
Segundo Setenta e Lobão (2012, p. 44), a região cacaueira ocupa uma área
de cerca de 92.000 km2 e tem no cacau-cabruca um elemento de
identidade, de sustento econômico e de saber-fazer. O sistema cabruca é
definido como “[...] predecessor dos sistemas agrossilviculturais (agroflorestais),
apresenta melhor eficiência ambiental, potencialidade em propor inclusão social
e rentabilidade sem erradicar a mata original [...]”. Ainda são atribuídos ao
sistema cabruca alguns elementos positivos como a “produção sustentável de
madeira, flores, fármacos e outros produtos [...]” (SETENTA; LOBÃO, 2012, p.
51).
Neste cenário, a Indicação Geográfica (IG) pode ser um dos instrumentos de
que a região precisa para ter desenvolvimento e sustentabilidade. Tem havido
uma série de estudos científicos que dão suporte à proposta de uma IG “Sul da
Bahia” que acompanharia o cacau produzido na região, aumentando seu valor, além
de grande mobilização de autoridades locais, estaduais e nacionais (em 2014,
ocorreu em ilhéus o maior evento sobre IG no país, o III Simpósio Internacional
de Indicações Geográficas), mas estes esforços precisam ser combinados com a
conscientização das pessoas, em especial das novas gerações, deste importante
valor que temos e que é só nosso.
Recentemente, produtores de nossa região tiveram seu cacau premiado no Salão
de Chocolate de Paris como entre os melhores do mundo. O Sistema Cabruca (que
ajudou a manter a Mata Atlântica) foi o único sistema agroflorestal a representar
o Brasil na Conferência Rio+20 e todo este reconhecimento envolve trabalhos das
áreas do conhecimento.
Concluindo, as dimensões das Ciências, Tecnologia, Cultura e Trabalho podem
e devem ser discutidas no espaço escolar tendo como um de seus eixos o cacau. Para
isso, é necessário que as escolas discutam este tema, nos seus vários aspectos,
como tema de Ciências, particularmente Biologia, de História, de Geografia, Sociologia,
etc. Na Europa, onde há milhares de IG’s reconhecidas oficialmente (talvez a
mais conhecida seja a região de Champagne, famosa pelo seu vinho espumante), é
comum que as IG.s de cada região sejam apresentadas nas escolas,
rotineiramente, como parte do processo de valorização cultural dos lugares e de
sua gente. O cacau ainda faz parte do cotidiano de nossos alunos e de suas
famílias. Acredito que vale a tentativa de trabalhar esse tema e buscar,
talvez, bons resultados.
REFERÊNCIAS:
BAIARDI,
Amílcar; TEXEIRA, Francisco. O
desenvolvimento dos territórios do Baixo Sul e do Litoral Sul da Bahia: a rota
da sustentabilidade, perspectivas e vicissitudes. Salvador /Bahia, 2010.
BRASIL. Instituto Nacional de Propriedade Industrial e
Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas. Indicações Geográficas Brasileiras. Brasília: SEBRAE, 2010.
BRASIL. Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio.
Acordos da OMC. Disponível em http://www.mdic.gov.br/sitio/interna/interna.php?area=5&menu=367.
Acesso em: 29/10/2013.
HOLANDA, Mônica. Chocolate para o mundo ver. Jul/2012. Agência Prodetec. Disponível em: <
http://www.agenciaprodetec.com.br/especiais/275-cacau-apos-crise-transformacao-e-mercado-em-alta-.html>.
Acesso em 16 de outubro de 2013.
INSTITUTO
BRASILEIRO DE GEOGRAFIA E ESTATÍSTICA (IBGE). Bahia. Disponível em: < http://www.ibge.gov.br/estadosat/temas.php?sigla=ba&tema=contasregionais2010>.
Acesso em: 2
nov. 2013.
MENDES COSTA, Francisco. Políticas públicas e atores sociais na
evolução da cacauicultura baiana. Vila Velha, ES: Opção Editora, 2012.
Relatório Técnico para prestação de contas. Salon du
Chocolat. 31 de outubro a 4 de novembro, Paris, França. Ilhéus: Instituto
Cabruca, 2012.
RIBEIRO,
André Luís Rosa. Família, poder e mito:
o município de S. Jorge dos Ilhéus (1880-1912). Ilhéus: Editus, 2001.
SETENTA,
Wallace; LOBÃO, Dan Érico. Conservação Produtiva: cacau por mais 250 anos. Itabuna-Bahia. 2012.